A intenção desta coluna é reconstituir através dos relatos dos ex-jogadores Sidnei Alástico e Fernando Paolilo, os bastidores daquele sábado (30 de abril de 1983), ocasião em que a Ferroviária humilhou o Grêmio em Porto Alegre. Na capital gaúcha desde a véspera do jogo, a Locomotiva iria encerar sua participação na 3º Fase da Taça de Ouro, após surpreender o país inteiro com seus triunfos no certame.
Equipes como o Botafogo (RJ) e Internacional (RS) já haviam caído diante do onze grená nas duas fases anteriores. Contudo, após os embates contra São Paulo e Sport (PE)
na fase derradeira, o onze grená chegou à rodada final sem chances de classificação, bastando ao Grêmio um simples empate para manter-se vivo na briga pelo titulo nacional.
A Ferroviária, debutante na competição se concentrou num hotel em Porto Alegre e na noite que antecipou o confronto foi vitima da torcida gremista que ficou nas cercanias do local soltando rojões. "Não chegou a ser criado um clima de guerra, porque eles tinham a classificação como certa. O foco do Grêmio estava na Libertadores e encararam a partida como se fosse um treino" , conta Fernando Paolilo. O ex-zagueiro que entrou no transcorrer da partida lembra que houve menosprezo por parte da imprensa gaúcha. "O Brida (técnico) fez uso de alguns recortes de jornais que ironizavam o nosso time. Durante a preleção falou ainda que o adversário não imaginava poder ser surpreendido em seus domínios. Já o presidente Pareli, incomodado com o "clima de já ganhou" por parte dos gaúchos, afirmou que pagaria o bicho no avião caso desbancássemos o Grêmio", relembra o defensor .
Vale lembrar que no Nacional de 1983 o montante maior na arrecadação da renda ficava com o time vitorioso, e não com o mandante.
Tive a oportunidade de ver os gols deste jogo e a história contada por vários cronistas esportivos, porém, as curiosidades apontadas pelos ex- atletas dão uma nobreza ainda maior ao episódio. O meio-campista Sidnei Alástico destaca ainda hoje a ousadia do técnico Brida , que após a saída de Sebastião Lapola comandou a agremiação em seu último ato no nacional.
"Ele tinha certeza de que iríamos surpreender o Grêmio. Por isso, mudou o ataque e pensando em dar maior velocidade ao setor, escalou Jorginho, Claudinho e Bozó, tendo ainda Douglas Onça na armação das jogadas. Aconteceu que o Grêmio ficou refém do nosso contra-ataque", analisou Alástico.
Não é à toa que aos 22 minutos de jogo a AFE já vencia o jogo por 2 a 0. "Quando eles acordaram para a realidade da partida, se depararam com o resultado adverso, com a Ferroviária bem postada em campo e imprimindo velocidade", completou o ex- meio-campista.
O Grêmio diminuiu o marcador aos 25 minutos do 2º Tempo e até o fim do jogo tentou pressionar a Ferrinha em busca de empate.
Paolilo lembra que entrou na vaga de Jorginho para segurar o resultado. "Os jogadores do Grêmio acreditavam piamente que iriam conseguir reverter o marcador. Entrei no momento difícil do jogo e me lembro-me que no gramado eu, o Douglas, o Junior e o Claudinho olhamos uns para os outros e após um breve silêncio eu disse que deveríamos mostrar para eles quem eram os caipiras e onde estava a cidade de Araraquara no mapa do Brasil", relembra o central.
Prova de como a Ferrinha venceu o duelo no contra-ataque é a forma com a qual foi desenhado o terceiro gol grená. Num lançamento feito ainda no campo de defesa afeano, Douglas Onça recebeu a bola sozinho no circulo central, adiantou-se, disparou em velocidade e quando observou o goleiro Remy fora da grande área, não titubeou e encobriu o arqueiro: Golaço! Final de jogo: 3 a 1 para a Ferroviária, e o Grêmio que iria conquistar a taça Libertadores da América e o Mundial Interclubes de 1983, se viu eliminado da competição pela equipe da Morada do Sol.