Final de dezembro de 1971. Quarta - feira à noite na cidade de Marília. Na última rodada do certame, AFE e MAC fariam um jogo que entraria para a história como o mais violento na trajetória da Associação Ferroviária de Esportes.
A AFE aportou em Marília sem pretensões de classificação, porém aos donos da casa, um simples triunfo levaria o time à fase seguinte da competição. Antes de se deslocar até o Abreuzão, alojados em Garça, os diretores da Ferrinha recebiam a cada hora propostas mais elevadas, já que uma vitória do MAC tiraria da disputa outras equipes tradicionais.
Fernando Paolilo, o central afeano relembra a passagem. "Em Garça ficamos sabendo. Primeiro, era oito, depois 10 e no fim 12 mil para que não fossemos derrotados. Eram muitos os incentivos para que segurássemos o adversário", destaca o defensor.
Estádio lotado, dinheiro sendo oferecido para a AFE, e uma selvageria que jamais será esquecida por aqueles que presenciaram o confronto, agora perdido no tempo.
A partida foi extremamente disputada, nervosa, equilibrada e tensa. O Paulistinha era o formato da época, que dava vagas às agremiações interioranas, para disputar o Paulistão com os considerados "grandes".
Arquibancadas tomadas pela torcida adversária que apoiava e ao mesmo tempo pressionava os anfitriões. Ao final da disputa o placar apontou: 1 a 1. Resultado que não qualificou o Marília.
Mal deu tempo para os afeanos comemorarem o resultado, pois em questão de segundos a torcida adversária invadiu o campo, e junto com os atletas do MAC partiram para cima dos atletas da AFE.
Os afeanos não tiveram tempo de correr ao vestiário e foram apanhados no gramado. Socos, murros, pontapés e coagidos, os jogadores tentavam defender-se dos ataques.
Jamais uma situação semelhante havia ocorrido na história da Associação Ferroviária de Esportes.
Na cabine de imprensa, o locutor Wilson Luis, narrando o duelo pela Rádio Cultura foi às lágrimas, pois sabia que não era uma simples confusão, mas sim uma iminente catástrofe. Os araraquarenses, ligados na transmissão ficaram perplexos, e pela transmissão do rádio, tentavam entender o que acontecia no Abreuzão.
O repórter da radio cultura Antonio Rodrigues, o Toninho, acompanhava o jogo junto com seu companheiro de microfone, Jose Conde Sobrinho, que em Marília, representava a rádio Morada do Sol.
Como era costume na época, alguns cadeirantes eram convidados a assistir o jogo na beira do gramado. Não fossem esses, os repórteres teriam sido vitimas de agressões. Quem contou a passagem recentemente no Museu do Futebol foi o próprio Toninho. "Torcida, diretores e jogadores, todos queriam nos agredir. A única saída foi pegar a cadeira de roda, disfarçar e tentar se desvencilhar da briga pedindo passagem para que o mesmo fosse retirado em segurança. Só conseguimos entrar no vestiário em função do cadeirante", narra.
Ele relembra ainda: "A confusão não parava; jogadores da Ferroviária apanharam muito, enquanto eu e o José Conde conseguimos entrar no vestiário com o cadeirante sem maiores consequências", enfatiza.
O repórter lembra ainda outro fato pitoresco. "Antes de chegar a Marília, não sei o porquê, me deu cinco minutos e quis tirar a placa do carro. Talvez fosse um mal presságio, imaginando que o pior estava por vir", destaca o cronista.
Toninho tinha razão, pois muitos carros de Araraquara foram apedrejados pela torcida eufórica do Marília.
Diferentemente das brigas de hoje, onde a polícia consegue contornar a situação naquela feita, mediante o descontrole dos torcedores, os militares não conseguiram conter os espectadores. Wilson Luis vendo tamanha selvageria mal conseguia narrar o termino do confronto. "Aquilo parecia leite derramando, já que de todos os lados surgiam pessoas querendo agredir nossos jogadores. Eles não se conformavam de perder a classificação jogando em casa. Nunca havia visto algo semelhante e até os dias atuais não presenciei uma selvageria daquela proporção", conta o locutor.
Saldo final: quatro jogadores da AFE foram medicados em função dos ferimentos. A delegação grená tardou a regressar para Araraquara, sendo necessário apoio especial da PM e o ônibus da equipe só conseguiu deixar Marília às duas horas da manhã.
O embate entre MAC e AFE naquele fim de ano de 1971 entrou para a história, não apenas pelos bastidores que antecederam o duelo, mas, sobretudo, pelo teor de violência e desrespeito na conduta da torcida e representantes da agremiação adversária.