Antes da fundação da Associação Ferroviária de Esportes (AFE), ocorrida na sede do clube 22 de agosto, no dia12 de abril de 1950, pelo engenheiro Antônio Tavares Pereira Lima, o primeiro presidente da AFE já havia convencido a cúpula da Estrada de Ferro de Araraquara sobre a importância e a necessidade da edificação não apenas de um clube recreativo para os ferroviários, mas incutiu nos mandatários a ideia de formar uma equipe de futebol profissional e de um estádio para o time.
Pereira Lima, mineiro de Guaranésia, engenheiro entusiasta, que já havia trabalhado na cidade de São José do Rio Preto, onde fundara o América em 1946, solicitou à Prefeitura Municipal de Araraquara uma área para construir o complexo esportivo, tendo como foco principal a feitura de um estádio.
Na Ferroviária as coisas aconteceram rapidamente. Desde a ata de fundação do clube, até o primeiro duelo disputado no Estádio Municipal foram apenas 13 meses, e foi necessário apenas mais um, para que a AFE fizesse sua partida inaugural no Adhemar Pereira de Barros (Fonte Luminosa).
Após a concessão do terreno, os trabalhos tiveram início a todo vapor. Muitos funcionários foram designados para dedicar esforços no intuito de levantar o local onde a Ferroviária iria realizar duelos inesquecíveis. Além dos operários da Estrada de Ferro que estavam engajados na construção da praça esportiva, muitas pessoas, empolgadas com o surgimento do clube, iam por conta no período da noite, com o objetivo de adiantar a elaboração do estádio.
Com todo o respaldo da Estrada de Ferro, o local ficou pronto para a inauguração em pouco mais de três meses. Além de fiscalizar e atuar diretamente na edificação do estádio, o presidente-fundador, Pereira Lima, também fez questão de participar do plantio da grama, daquele espaço que no futuro seria chamado pela crônica esportiva, de ‘o Majestoso’.
Num domingo (19.11.1950), o jornal O Imparcial noticiava em sua coluna "Éco e Novidades", a seguinte informação: "Continuam as obras de construção do Estádio da Ferroviária. Dentro de poucos dias a crônica esportiva especializada fará uma visita ao local, para o que foi gentilmente convidada, ocasião em que fará ampla reportagem da grande iniciativa dos ferroviários, em dotar a ‘Cidade Jardim' de mais uma completa praça esportiva".
Dez dias depois, o mesmo diário publicava “O Estádio da Associação Ferroviária de Esportes em marcha! Homenageados os cronistas esportivos pela diretoria. A terraplenagem está pronta. A grama será plantada ainda esta semana.”
A visita dos jornalistas aconteceu no final de novembro, um sábado, quando em carros especiais rumaram para a Vila Ferroviária. Seguiram, além dos cronistas, a maioria dos diretores da AFE, e outros desportistas. Em "O Imparcial" de 6 de março de 1951, o jornalista Roque José Hage, da ACEA, tecia comentários a respeito da obra que vinha surgindo em Araraquara; o Estádio da AFE. Dizia o seguinte trecho: "O gigante, orgulho da família afeana começa a despertar a atenção dos nossos dirigentes esportivos".
Vasco da Gama é convidado para a inauguração
A Ferroviária já havia estreado no Campeonato Paulista da Segunda Divisão, em confronto disputado em Uchoa, e numa folga no certame, foi marcado para o dia 10 de junho de 1951 o primeiro embate do time grená em seu estádio. Surpresa maior foi o dinamismo de Pereira Lima que quis trazer para a inauguração o Vasco da Gama, base da seleção brasileira, vice-campeão da Copa do Mundo de 1950, e conhecido pela alcunha de ‘Esquadrão da Vitória’.
No dia 1 de abril de 1951 era conhecido o texto do telegrama enviado ao clube carioca: “Confirmando os entendimentos havidos entre o senhor Eurico Lisboa Filho e nosso presidente doutor Pereira Lima vimos fixar data dez de junho próximo vinda esquadrão titular Vasco da Gama inauguração do estádio Ferroviária Esportes Araraquara mediante cem mil cruzeiros livres e viagem avião e estadia. Segue correspondência. Pedimos confirmar telegraficamente. Saudações. Alberto Lemos. Secretário Geral Associação Ferroviária Esportes. Araraquara.”
Em resposta, no dia 2 de abril de 1951, a diretoria do Vasco da Gama enviou o seguinte telegrama: "Urgente. Associação Ferroviária Esportes. Araraquara. Respondendo seu telegrama confirmamos o jogo dez de junho. Vasco da Gama".
Aproximava-se a visita da agremiação carioca a Araraquara e a manchete do mesmo jornal destacava: "A mais sensacional tarde esportiva de todos os tempos! Entusiasma-se toda a zona com a visita do Vasco da Gama! O estádio afeano ficará pronto amanhã (dia 8 de junho de 1951), às 16 horas, no aeroporto local, de onde sairá para o Hotel São Bento".
A reportagem do jornal colhia a opinião dos torcedores araraquarenses, correndo toda cidade. No bar Rex, na rua Gonçalves Dias, de propriedade de Clóvis de Oliveira, o popular Baiano, o senhor Albertino Corrêa arriscou um palpite: 3 a 1 para o Vasco!". I próprio Baiano falava em 0 a 0, mas o Milton Veltri arriscou 4 a 1 para o Vasco será o resultado do jogo". Ao lado do senhor Joaquim, o primeiro palpite feminino foi o da senhorita Maria Thereza Borba que disse: "Sou bairrista cem por cento e vou torcer para uma vitória da Ferroviária, pela contagem de 2 a 1, apesar do poderio do Vasco”, opinava a torcedora.
Araraquara vive um dia de festa!
Vencer o Vasco da Gama, entrosado, com jogadores pertencentes ao selecionado canarinho era pretensão demais. O que realmente estava em jogo era a festa, a alegria de toda uma cidade. E isso aconteceu! Milhares de torcedores chegavam de trem dos mais variados municípios, e as cercanias do estádio iam sendo preenchidas.
O time grená já havia feito o seu jogo inaugural no estádio municipal Tenente Siqueira Campos, vencendo a Mogiana por 3 a 1, contudo seria para muitos a possibilidade de ver o novo time da cidade e a novidade que era o estádio. O onze cruzmaltino não se esforçou para vencer a Ferroviária, e o placar final apontou 5 a 0 para os cariocas, com todos os gols anotados no 1º Tempo. Friaça teve a primazia de anotar o primeiro tento no estádio. Ele marcou outros três, enquanto Tesourinha também deixou o seu. Além da superioridade técnica, o Vasco da Gama tinha o entrosamento, que do lado grená ainda não havia sido adquirido. Independente do resultado, o que marcou a inauguração do Estádio Adhemar Pereira de Barros foi o prazo recorde em que ele foi erguido, os esforços para que uma tradicional equipe brasileira figurasse no evento proporcionado a cidade. A renda passou dos 300 mil cruzeiros.
Dirceu marcou o primeiro gol na Fonte Luminosa
Depois da inauguração de seu estádio, a Ferroviária continuou atuando no estádio municipal para os últimos ajustes em sua praça esportiva, e só voltou a atuar no local no dia 8 de agosto de 1951, para enfrentar o Barretos, duelo válido pela décima rodada da segunda divisão. Foi então que aconteceu a marcação do primeiro gol grená na Fonte Luminosa. Dirceu anotou os dois gols da vitória por 2 a 1, já que o gol histórico de Fordinho (o primeiro do clube) aconteceu no ‘Municipal'.
Por que Fonte Luminosa?
O nome do estádio sempre foi e continua sendo: Doutor Adhemar de Barros, mesmo após a transformação em Arena Multiuso. Foi uma homenagem ao ex-governados de São Paulo, pois o montante advindo para a construção do campo veio pela relação estreita relação da Estrada de Ferro Araraquara com o então governador. O estádio não era da Ferroviária, o que só aconteceria em 1973.
A alcunha ‘Fonte Luminosa’ passou a ser uma referência, já que em 1948, Araraquara já conhecia sua primeira Estação de Tratamento do DAAE (Departamento Autônomo de Água e Esgoto), junto com o chafariz que a tornou mais conhecida como Fonte Luminosa. A associação não tardou a acontecer.
A avenida Bento de Abreu só seria asfaltada e movimentada no final da década de 50. Vale ressaltar que a lembrança de Adhemar de Barros é também explicada por ele ter construído o conjunto de 200 casas da Vila Ferroviária, que até hoje norteiam o estádio.
Maior goleada e artilheiro do estádio
No dia 15 de dezembro de 1955, ano em que a AFE conquistou o acesso a Primeira Divisão do Futebol Paulista, a Ferroviária, atuando na Fonte Luminosa, estabeleceu a maior goleada de sua história, vencendo o Velo Clube por 15 a 1, com sete gols anotados pelo avante Cardoso, hoje radicado em Descalvado. Tal feito jamais foi batido.
Fonte Luminosa sem iluminação?
A ‘Fonte’ se tornou realmente iluminada apenas no dia 15 de abril de 1959, quando houve a inauguração do sistema de refletores do estádio. Na ocasião quem a cúpula grená escolhe para os festejos? Justamente o Vasco da Gama do Rio de Janeiro.
A agremiação carioca não teve facilidades, já que naquele ano a Ferroviária realizaria a melhor campanha em todos os tempos no Campeonato Paulista da Primeira Divisão. Para vir a Araraquara, a diretoria do Vasco recebeu o montante de 300 mil cruzeiros livres de qualquer despesa, para vir com todos os seus titulares. A AFE arcou ainda com as despesas de transporte aéreo no valor de 108 mil cruzeiros e hospedagem de hotel, 15 mil cruzeiros, totalizando 423 mil cruzeiros de despesas. O jogo terminou empatado por 3 a 3.
Antes disso no dia 8 de outubro de 1958, aconteceu a pré-inauguração da iluminação do estádio, data em que a Ferroviária recebeu a Ponte Preta, suplantando o adversário por 3 a 2.
Ferroviária adquire a Fonte Luminosa
Durante mais de 20 anos o time jogou no estádio, contudo o local e seu complexo esportivo com o conjunto de piscinas, sendo uma olímpica, incluindo trampolins e arquibancadas, além ainda de outros campos de treinamento, quadras, área de lazer, salão nunca tinha sido foi um patrimônio do clube.Ocorre que no final da década de 60, a Federação Paulista de Futebol (FPF) passou a cobrar uma capacidade maior da praça esportiva e a substituição das arquibancadas de madeira. Qual era a preocupação afeana? A análise dos diretores era de que as possíveis reformas a serem realizadas no espaço poderiam ser em vão, pois o estádio não era particular. Em 1967, foi feita a junção das ferrovias, ficando sob a tutela do Estado. Algumas outras denominações foram criadas, dentre ela a FEPASA, que ficou detentora do complexo da Fonte Luminosa.
Depois de inúmeros esforços, em janeiro de 1973, a diretoria da Ferroviária conseguiu, no mandato do presidente José Wellington Pinto, comprar o estádio, alinhando conversações com o deputado araraquarense Aldo Lupo e governador Laudo Natel para a aquisição do local.
Houve uma iniciativa de que a prefeitura comprasse o patrimônio, para posteriormente ceder à Ferroviária em regime de comodato, contudo o intento acabou não acontecendo, e o município entrou na negociação como avalista.
No dia 29 de janeiro de 1973, foi assinado no Palácio dos Bandeirantes o acerto da aquisição de todo o Complexo Esportivo, pelo valor de Cr$ 500,00, 00, a serem pagos em cinco anos. O prefeito Rubens Cruz e o vice José Alberto Gonçalves ficaram como avalista do contrato. A partir desse momento a Ferroviária passava a ser proprietária de toda a estrutura, podendo investir em melhorias para o local.
O ex-presidente José Wellington lutou muito para idealizar um dos ‘Ferrões' de concreto no estádio. A venda do zagueiro Mauro Pastor para o Internacional de Porto Alegre em 1978 contribuiu bastante, sem contar o dinamismo do também ex-mandatário grená Antônio Nogueira da Gama, que idealizou a Campanha Ferroviária no Nacional em 79, para angariar fundos destinados à substituição das arquibancadas e o aumento da capacidade de espectadores. Nos anos 80 surgiram as cadeiras cativas e uma comodidade maior para os cronistas esportivos usufruírem nas novas cabines de imprensa.
Fonte Luminosa passa para o município
Em 2006, três anos após a criação da Ferroviária Futebol S.A, empresa criada para trabalhar com o departamento de futebol profissional da equipe araraquarense, a prefeitura comprou toda a área do antigo Estádio da Fonte Luminosa, que iria a leilão, por causa das inúmeras dívidas trabalhistas que a AFE (Associação Ferroviária de Esportes) havia contraído. Na época, o valor empregado na compra foi usado para quitar estes débitos.
Já em 2008, a velha e saudosa Fonte Luminosa teve parte da sua estrutura demolida para o inicio das obras da Arena Fonte Luminosa. No período entre junho de 2008 e outubro de 2009, o time grená mandou seus jogos ora no recém inaugurado Estádio Cândido de Barros (o Botânico), ora no Taquarão, na cidade de Taquaritinga.
Pela antiga praça esportiva, muitos gols ainda ecoam no local, vozes de torcedores eufóricos com as conquistas da Locomotiva parecem permanecer no ambiente. Naquele estádio, outrora chamado de ‘Majestoso', os melhores craques do país desfilaram seu futebol. O Santos de Pelé atuando em Araraquara nunca teve vida fácil contra o time avinhado. A expectativa é que em pouco tempo haja grandes relatos inerentes aos feitos e conquistas da Ferroviária de Araraquara na Arena Fonte Luminosa.
Em 2009, após um ano e quatro meses de reformas, foi a inaugurada a Arena Multiuso da Fonte Luminosa, o mais moderno estádio do interior de São Paulo. No jogo de inauguração, com direito a recorde de público, a Ferroviária bateu o Ituano por 2 a 1. O lateral-esquerdo Fernando Luís marcou o primeiro tento no novo estádio, ao passo que Joel marcou o outro gol. Um público recorde, de 21.254 acompanharam o triunfo grená, no embate válido pela Copa Paulista.
Foi na Arena, que a Ferroviária conquistou em 2010 o seu acesso para a Série A2 de 2011. Foi jogando no novo estádio, que o time de Araraquara estabeleceu a maior sequência de vitórias de seus 61 anos de fundação. Entre 1 de agosto a 8 de setembro, a Locomotiva sequer empatou fora e dentro dos seus domínios.
As fontes citadas neste texto são: Tópicos do passado, do cronista esportivo Antônio Jorge Moreira, Museu do Futebol, Fonte Luminosa (Luis Marcelo Inaco Cirino) e Ferroviária em Campo (Vicente Baroffaldi)
Dados da Fonte Luminosa:
Estádio: Doutor Adhemar Pereira de Barros (Fonte Luminosa)
Inauguração: 10/06/1951 (Ferroviária 0x5 Vasco da Gama-RJ).
Inauguração Arena da Fonte: 22/10/2009 (Ferroviária 2 x 1 Ituano)
Primeiro Gol na Fonte: Friaça (Vasco da Gama-RJ.)
Autor do primeiro da AFE na Fonte Luminosa: Dirceu, na vitória por 2 a 1, sobre o Barretos em 5 de agosto de 1951.
Autor do primeiro gol na Arena da Fonte: Fernando Luis, em 22 de outubro de 2009, no triunfo sobre o Ituano por 2 a 1.
Endereço: Praça Scalamandré Sobrinho, s/nº - Vila Ferroviária - Araraquara-SP - Cep: 14802-355
Capacidade: 25.000 pessoas
Dimensões do gramado: 110m x 75m
Recorde de público com cobrança de ingressos: 19.421 pessoas em 1993 no jogo AFE 0 x 1 SE Palmeiras pelo Octogonal do Campeonato Paulista da primeira divisão.
Recorde de público com entrada gratuita: 21.254 espectadores estiveram na inauguração da Arena da Fonte em 2009: AFE 2X1 Ituano.