Em minha memória dois fatos inerentes ao ano de 1985 nunca foram esquecidos. É verdade que com cinco anos, minha dedução era mínima, porém as lembranças ficaram e depois compreendi a importância histórica dada na época aos dois episódios, um deles para o Brasil e o outro para o meu time do coração.
Ficou gravado o infortúnio pelo qual o recém-presidente eleito Tancredo Neves passou na véspera de sua posse e também a euforia que tomou conta da Morada do Sol perante a presença da Ferroviária nas finais do Paulista.
Tancredo Neves na iminência da sua posse adoeceu e por um período duradouro ficou num leito entre a vida e a morte. A questão teve ampla cobertura na mídia; meus pais chegavam em casa e ligavam a tevê a fim de saber as últimas informações. Não entendia nada de política, mas lembro que junto com aos meus pais torci muito pela cura do político, o que infelizmente não aconteceu.
A vida continuou e mesmo sem nunca ter ido ao Estádio da Fonte Luminosa - isso só aconteceria dois anos depois-, ficava ligado ao rádio, a fim de escutar os pormenores dos comentários dos Campeões da Bola, atento a emocionante narração de José Roberto Fernandes, acompanhado por Sidney Schiavon e Wagner Bellini e equipe.
Os debates diziam que a Ferroviária havia adquirido o direito de disputar as finais do Paulista, mas davam conta de que o Corinthians estava fazendo de tudo para isso não acontecer. Pensava eu: Por que o Corinthians iria fazer isso? Demorei a entender os detalhes daquele entrave entre o onze grená e o alvinegro, que seria decidido nos tribunais, e o mesmo se deu quando compreendi o significado da morte de Tancredo, já que 20 anos depois, estávamos saindo das máculas deixadas pelo Regime Militar (1964-1985).
Percebi com o tempo que ainda que eleito indiretamente (Neves venceu Paulo Maluf no Colégio Eleitoral), a repercussão da eleição, e, por conseguinte da sua enfermidade, era coerente. Afinal de contas a democracia que vivenciamos hoje é fruto daquele marco histórico que foi a transição para o presidencialismo direto.
Em Araraquara foi feita uma verdadeira cruzada, já que os dirigentes afeanos, a crônica esportiva e toda a torcida, foram para o ataque, a fim de ver a Ferrinha nos finais do certame e não permitir que o Corinthians estragasse a festa.
Por que o Corinthians entrou no tribunal contra a Ferroviária?
Para as finais do Paulista de 1985 rumariam os vencedores do primeiro e segundo turno (Portuguesa e São Paulo respectivamente), além de dois melhores times qualificados pelo índice técnico. Chegaram à última rodada do certame, Ferroviária e Corinthians com 42 pontos, além do Palmeiras com 40. O Timão iria enfrentar o Comercial em Ribeirão Preto, a AFE teria pela frente a Portuguesa na capital, mesmo local onde o Palmeiras encararia o XV de Jaú.
A equipe do Parque São Jorge não foi páreo para o Bafo e acabou derrotado por 1 a 0. Como o jogo do Corinthians ocorreu pela manhã, a Ferroviária pisou no gramado do Canindé sabedora que um empate levaria a agremiação para o quadrangular final. O doutor Marcelo Cirino em seu livro: Fonte Luminosa, diz que o time fez uma boa partida, encarando de igual para igual a Lusa, ressaltando que a arbitragem foi complicada e parcial a favor da Portuguesa. Resultado: 3 a 1 para a Lusa.
Foi aí que entrou em cena o XV da Jaú, que para a surpresa de todos, suplantou o Palmeiras por 3 a 2 em pleno Parque Antarctica. O triunfo do Galo da Comarca credenciava a Ferroviária a fazer uma das semifinais do Paulista, já que com a mesma pontuação do Corinthians a AFE levava vantagem no número de vitórias.
O jurídico do Corinthians entrou em ação e no dia 20 de novembro o Tribunal de Justiça Desportiva retirava um ponto da Ferroviária no empate do time grená contra o XV de Piracicaba, jogo em que o técnico Bazani colocou o zagueiro Dama nos últimos momentos do confronto. A cúpula corintiana dizia ser ilegal, alegando que o defensor havia tomado o terceiro cartão amarelo atuando pelos juniores, não estando apto para figurar naquele duelo.
Entrou em ação um levante grená para na justiça recuperar o direito que a agremiação havia conquistado em campo. Durante duas semanas, o presidente Gaeta, amparado por Flávio Ferraz de Carvalho, Bruno Ópice da Matos, o advogado Paulo Sérgio, os diretores arianos e a imprensa local reivindicaram o ponto retirado da equipe.
Enquanto os políticos indiretamente ainda escolhiam os representantes do país, da mesma forma, o Tribunal Pleno do TDJ negava o pedido dos araraquarenses. Contudo, com muito brio a "gente afeana" não esmoreceu, e a diretoria recorreu ao Supremo Tribunal da CBF do Rio de Janeiro, para enfim o júri confirmar a vitória alvirrubra na justiça.
Após tamanhos esforços e evidência na mídia, os afeanos puderam definitivamente comemorar a passagem para as finais. Enquanto na política, Tancredo Neves havia sido substituído por José Sarney, a Locomotiva voltava a ocupar com todos os méritos o posto momentaneamente ocupado pelo Corinthians nas finais.
Até os dias de hoje procuro saber detalhes tanto sobre o que foi o Golpe de Estado de 64 bem como a epopéia da Ferroviária no dia 12 de dezembro de 1985 quando no gramado da Fonte, o onze grená fez uma primorosa atuação contra a Portuguesa de Desportos. Com um homem a menos e tendo Wilson Carrasco a AFE empataria com a Lusa por 2 a 2, e posteriormente seria suplantada pelo time da capital no jogo de volta. Mas ficou marcado para a torcida e imprensa, que os triunfos da AFE na Taça de Ouro de 1983 não era uma obra do acaso.
Dois anos depois, com Washington, Nonoca, Marco Antonio, Alástico, Wilson Carrasco, Nenê, Marcão e Cia, o onze grená só não chegou a final por não ter dilatado o placar no confronto inicial.
Constantemente visito o passado, e por algumas peculiaridades, 1985 é um ano que para mim ainda não acabou!