A Ferroviária, como diz o próprio nome, surgiu de uma intenção de todos aqueles que estavam ligados à Estação Ferroviária de Araraquara (EFA). Seu Domingos Pecoraro, que trabalhou durante 30 anos na estação, foi um daqueles servidores que ajudou a fundar o time. Hoje, aos 91 anos, ele ainda vibra ao falar da década de 50, quando o clube nasceu.
Morador da rua Voluntários da Pátria, a chamada Rua 5, seu Domingos já não vai mais ao campo, mas ainda tem imenso prazer de ouvir os jogos da AFE em seu radinho de pilha e discutir futebol com qualquer interessado, sempre relembrando de grandes momentos do time Grená.
Com uma memória de dar inveja a muito garoto, Domingos explica com detalhes como surgiu o primeiro corpo diretivo da Ferrinha e a criação do time no dia 12 de abril de 1950.
"Eu fui chamado para ajudar na criação da Ferroviária quando trabalhava na oficina. O doutor (Antônio Tavares) Pereira Lima que organizou tudo e ficou como o primeiro presidente e como vice tinha o doutor (Hermínio) Amorim Júnior, secretário o seu Ciro Campos e também seu Augusto de Campos de tesoureiro. Aí, logo depois já formou o time" e lembra que a cor da camisa não era para ser Grená:
"A camisa seria azul. O Doutor Pereira Lima deu essa idéia, porque achava a cor bonita, mas quando foi feita a reunião para decidir, a maioria escolheu a cor grená, que tinha mais a ver com a estrada de ferro mesmo".
E falava qual foi sua função com o time: "Eu era um olheiro da Ferroviária no começo do time. Eu ia atrás de jogadores aqui do interior e tentava trazer alguns jogadores para o time. Fui a Fernandópolis, Mirassol e Santa Fé do Sul trazer alguns jogadores para a Ferroviária, a pedido do seu Pereira Lima e com o doutor Amorim e eu ia de trem".
E fala, com orgulho, da construção do estádio da Ferroviária, a Fonte Luminosa. Pouco mais de um ano depois da criação do time, era inaugurado o palco dos grandes jogos da equipe Grená.
"Onde é o estádio da Ferroviária, eram várias chácaras. Depois, a prefeitura pegou esses terrenos. Mas, como a Ferroviária tinha um "timão" e só jogava no estádio municipal, a diretoria viu que precisava construir um estádio. Então, o doutor Pereira Lima pediu ajuda do Governo do seu Adhemar de Barros e eles conseguiram um acordo com a prefeitura para fazer o estádio, que acabou ganhando o nome do seu Adhemar como homenagem".
E revela: "O estádio da Ferroviária era para ser todo fechado, em um único anel, como o estádio do América, de Rio Preto (Teixeirão). Na época não tinha o "ferrão", como tem hoje. Era de uma altura só, mas aí ninguém sabe muito bem porque não foi fechado o estádio" e se lembra do jogo inaugural, contra o Vasco da Gama.
"No primeiro jogo, o estádio foi aberto para todo mundo. Era para vir um time paulistano, mas depois decidiram trazer o Vasco. Nessa partida a Ferroviária acabou perdendo de 5 a 0. O Friaça, um craque de bola na época fez 4 gols naquele jogo", comenta.
Mas, a Ferroviária também teve seus grandes jogadores. Seu Domingos recorda alguns nomes que marcaram na história com a camisa Grená. Por aqui passaram grandes jogadores. Tinha um beque, Ferracioli, que era craque bola. Veio depois de alguns anos da fundação do time. Ao lado dele jogou o Pixo, que também atuou no Palmeiras e no São Paulo. Ele jogava muito bem. Na frente teve outros grandes jogadores. Lembro do Boquita, que era um ponta-esquerda baixinho, corria muito. Era muito bom de bola. Ajudou bastante a Ferroviária. Tem o Cardoso, atacante, também grande jogador. Depois teve o Pio, que foi jogar no Palmeiras também.
E fala do maior ídolo da história da Ferroviária, Olivério Bazzani Filho. O melhor mesmo foi Bazzani. Ele começou desde pequeno na Ferroviária, veio com o pai para cá. Ele era um meia-esquerda craque. Depois foi para o Corinthians e não se adaptou muito bem lá, mas aqui na Ferroviária jogava demais. O Santos, o Corinthians, o Palmeiras vinham aqui e não tinha para ninguém. A Ferroviária batia em todos eles".
E lembra da principal glória da Ferrinha, o tri-campeonato do interior, entre os anos de 1967 a 1969.
"A Ferroviária ganhou três vezes seguidas o campeonato do interior. Naquela época, a Ferroviária era o grande time do interior. Sempre montava time forte, tinha uma verdadeira seleção. Tanto é que o time ficou 40 anos na primeira divisão do Campeonato Paulista".
Depois de 1996, a Ferrinha não conseguiu mais voltar à divisão de elite do Campeonato Paulista No entanto, seu Domingos ainda acredita que o time pode voltar a estar entre os grandes do futebol estadual.
"Infelizmente faz alguns anos que a Ferroviária não vem bem O time acabou caindo, perdeu muito dinheiro e ficou difícil manter. Mas, agora, parece que vai melhorando, já conseguiu voltar para a segunda divisão (Série A2) e quem sabe não retorna", finaliza.
Por: Bernardo Sanches